Ícone, Índice e Símbolo Semiótica é, sinteticamente, a ciência que estuda os signos (não me refiro a signos do zodíaco nesse caso específico). A significação, a representação, a interpretação das coisas abstratas e concretas através do uso de figuras representativas. A própria linguagem, as letras, as palavras são signos utilizados para representar. Imagine se eu quisesse lhe falar sobre o monte Fuji, localizado no Japão. Se eu não pudesse falar, gesticular, mostrar fotografia do monte ou usar qualquer outra forma de comunicação para isso, certamente nunca eu conseguiria fazer com que você entendesse do que se tratava, a não ser que eu levasse você ao local ou trouxesse o local até você, o que é impossível. Todavia eu falo, escrevo, tenho fotos, e esses modos de comunicar são representações, são signos. Então eu não preciso fazer com que a montanha venha até onde estou para mostrá-la a você: basta usar suas representações, a saber, o nome (Monte Fuji) ou a fotografia do monte. Para Peirce, um dos pais da Semiótica, há três tipos de signos: *Ícone *Índice *Símbolo O ícone é a coisa, o objeto, ser etc., representados por uma cópia similar ou não similar a eles. Por exemplo: a fotografia (cópia similar) do Monte Fuji. Ou uma réplica em miniatura do monte. Ou ainda um desenho, pintura... O índice, como a palavra explica, é o ÍNDICE da coisa, objeto, ser etc. É o que os representa de forma mais "íntima" ou aproximada. Por exemplo: uma mecha de cabelo cortada é o índice de uma pessoa. O cheiro de churrasco é índice de que estão a assar carne. A fumaça é índice de fogo. O símbolo é todo o signo que fora convencionado. Ouvimos muito a expressão "símbolo sexual". O indivíduo denominado como símbolo sexual foi assim convencionado por vontade de muitos ou poucos. Trocando em miúdos, esse tipo de status foi imposto. Placas de trânsito são signos impostos, porém não deixam de ser ícones e índices. As placas designando os banheiros masculino e feminino são símbolos, inventados para a necessidade de INDICAR os banheiros aos seus usuários conforme seu gênero. Porque essas placas são ícone, índice e símbolo? Bom, são ícones por que representam os sexos feminino ou masculino através do desenho. São índices por que indicam que aqueles locais são banheiros, e nossa sociedade ocidental as reconhece assim. São símbolos por que houve uma convenção para que aquelas placas representassem os sexos masculino e feminino.
domingo, 10 de outubro de 2010
Ícones, grandes aliados do projetista.
Introdução
A escrita ocidental, baseada em um alfabeto composto de unidades mínimas (letras) que devem ser associadas para formar palavras, que por sua vez associam-se para formar frases, é inapropriada para transmitir mensagens instantâneas. "Há uma lombada adiante; diminua a velocidade" é uma frase comprida demais. A reação, após sua leitura e compreensão, pode chegar tarde demais.
Para superar esta limitação de nossa escrita surgiram os ícones.
O que é um ícone?
Um ícone é um símbolo gráfico cuja visualização recupera, da memória de curto ou longo prazo, lembranças relacionadas a vários fatores: perigos, alertas, opções, ações, etc.
Os ícones tem sido amplamente utilizados em diversos setores: na sinalização automobilística, na contracapa de listas telefônicas, em veículos de transporte de carga, etc. Possuem a vantagem, ainda, que podem ser facilmente interpretados por pessoas não alfabetizadas, o que em países em via de desenvolvimento com altos índices de analfabetismo representa uma característica altamente desejável.
Mas para serem compreendidos, e obter o efeito pretendido, um ícone deve estar associado a elementos conhecidos no contexto sócio-cultural do usuário.

Os ícones podem também representar símbolos de aparelhos existentes na vida real cuja função é similar à da aplicação.
Efetividade
A efetividade de um ícone depende da habilidade do usuário em reconhecer o que o ícone representa e associa-lo ao comando que será invocado. Quanto menor for o tempo de resposta, maior será a efetividade do ícone.
Segundo Norman, ícones altamente convencionais, concretos, que representam objetos e ações são mais efetivos que àqueles que se referem a analogias ou abstrações.
A efetividade de um ícone pode ser incrementada com texto (desde que breve e preciso). Exemplo:
Outra alternativa para incrementar a efetividade de um ícone é oferecer, ao deter ou passar o cursor do mouse por cima do ícone, uma breve mensagem que esclareça a função que será iniciada ao clica-lo (exemplo à direita). Entretanto, é imprescindível que o usuário conheça a finalidade da função associada.
Vantagens
Há várias vantagens associadas à utilização de ícones no projeto do diálogo com o usuário.
Ícones podem ser utilizados com diversas finalidades:
Uma “caixa de ferramentas” é um conjunto de ícones, agrupados segundo certo critério, que oferecem ao usuário as opções mais utilizadas da aplicação. Se seu significado não é óbvio, o agrupamento de ícones somente é aconselhado para usuários dedicados que usam a aplicação com freqüência. Rogers aconselha organizar os ícones en clusters, agrupando-os segundo um critério comum, mas preservando sua identidade dentro do grupo. A caixa de ferramentas do MS Word (à direita), é um exemplo de uma excelente implementação.
Conclusão
Os ícones são um grande aliado do projetista. Sua capacidade de compreensão imediata torna-os extremamente úteis para destacar ações, sinalizar eventos, representar estados.
Introdução
A escrita ocidental, baseada em um alfabeto composto de unidades mínimas (letras) que devem ser associadas para formar palavras, que por sua vez associam-se para formar frases, é inapropriada para transmitir mensagens instantâneas. "Há uma lombada adiante; diminua a velocidade" é uma frase comprida demais. A reação, após sua leitura e compreensão, pode chegar tarde demais.
Para superar esta limitação de nossa escrita surgiram os ícones.
O que é um ícone?
Um ícone é um símbolo gráfico cuja visualização recupera, da memória de curto ou longo prazo, lembranças relacionadas a vários fatores: perigos, alertas, opções, ações, etc.
Exemplos de ícones | |||
Mas para serem compreendidos, e obter o efeito pretendido, um ícone deve estar associado a elementos conhecidos no contexto sócio-cultural do usuário.
Provavelmente o ícone acima lembre ao leitor o controle de um aparelho de som, ou de vídeo, ou de um DVD. Mas para um morador de um vilarejo perdido dos Andes, por exemplo, onde não há energia elétrica e as condições sócio-econômicas são muito ruins, nada vai significar.
Tipos de ícones
Segundo Norman, há três tipos de ícones: | Os que representam os objetos que serão manipulados | |
| Os que representam as operações ou os operadores | |
| Os que representam operadores atuando sobre objetos |
A efetividade de um ícone depende da habilidade do usuário em reconhecer o que o ícone representa e associa-lo ao comando que será invocado. Quanto menor for o tempo de resposta, maior será a efetividade do ícone.
Segundo Norman, ícones altamente convencionais, concretos, que representam objetos e ações são mais efetivos que àqueles que se referem a analogias ou abstrações.
Ícone convencional, concreto, de alta efetividade | Ícone abstrato, de significado confuso.Contato? Telepatia? Qual o significado? |
Vantagens
Há várias vantagens associadas à utilização de ícones no projeto do diálogo com o usuário.
- Um ícone, desde que corretamente projetado, dispensa leitura, análise, reconhecimento ou tradução.
- É compreensível até por pessoas não alfabetizadas
- É compreendido rapidamente: “Estudos na compreensão de sinalização rodoviária demonstram que um ícone pode ser reconhecido ao dobro de distância e na metade do tempo que um sinal escrito”
- Contribui à facilidade de (re)aprendizado
- Projetados adequadamente, contribuem à optimização de espaço na tela
- Complexidade de criação (mas há extensas bibliotecas com ícones já prontos)
- Poluição visual, desde que usados sem critério
- Espaço (quanto mais ícones, menos espaço para a área de trabalho do usuário)
Ícones podem ser utilizados com diversas finalidades:
- Para ativar menus (ex: o famoso ícone "Start" do Windows)
- Para iniciar a execução de ações
- Para manipular janelas
- Para mudar de modo de operação
- Para revelar o estado de dados
- Para representar arquivos, diretórios, estruturas
Limite o número de ícones àquelas ações freqüentes; a utilização excessiva de ícones pode contribuir à poluição visual
- Quando um ícone é clicado, destaque-o daqueles que o rodeiam. Observe, à direita, parte da caixa de ferramentas do Photoshop. Qual o modo corrente de operação? A resposta é imediata. Nota dez.
- Destaque o ícone do background
- Não pode haver, na mesma aplicação, dois ícones parecidos.
- Cuidado com os ícones "cross-transaction": um mesmo ícone, ou ícones similares, não podem representar ações divergentes em aplicações diferentes.
- Cor e sombreamento podem ser usados para realçar um ícone. Considere a variação na capacidade cognitiva dos usuários da aplicação.
- Animação? Sim, mas com MUITO critério. Fatores de distração, em aplicações comerciais, são geralmente desaconselháveis (há exceções, que comentaremos oportunamente).
Conclusão
Os ícones são um grande aliado do projetista. Sua capacidade de compreensão imediata torna-os extremamente úteis para destacar ações, sinalizar eventos, representar estados.
- Ao decidir quais ícones usar e quais as ações às quais estarão associados, considere as características de usa audiência.
- Use, mas não abuse; a utilização excessiva de ícones pode contribuir à poluição visual
- Cores devem utilizadas com muita cautela, ou sua aplicação pode virar um carro alegórico.
Símbolos, Ícones e Índices
Os ícones são signos que guardam uma relação de semelhança com a coisa representada. São o tipo de signo mais fácil de ser reconhecido. Não é necessário qualquer tipo de treino especial para identificar uma fotografia de um gato. Basta ter já visto um gato. Exemplos de ícones são fotografias, desenhos, representações figuradas, estátuas, filmes, imagens.

Os símbolos são signos muito mais complexos. Imagina-se que eles só tenham surgido numa fase mais avançada da civilização humana. Os símbolos não guardam qualquer relação de semelhança ou de contiguidade com a coisa representada. A relação é puramente cultural e arbitrária. Para compreender um símbolo, é necessário aprender o que ele significa. Exemplos de símbolos são os logótipos de marcas, os símbolos próprios da matemática entre outros.

Os índices, talvez os primeiros signos utilizados pelo homem, têm uma relação com contiguidade com a coisa representada. Como pela experiência vemos um e outro juntos, passamos a estabelecer uma associação de uma coisa a outra. Por exemplo, nuvens negras indicam chuva, marcas de pneus no chão indiciam uma travagem rápida.
srv-reflexes-07.blogspot.com/.../smbolos-cones-e-ndices.html
A R T I G O
Peirce e a semiótica
“Entra em teu barco do devaneio, desatraca no lago de pensamento, e deixa o sopro do firmamento encher tua vela. Com teus olhos abertos, acorda para o que está à volta ou dentro de ti, e abre conversa contigo mesmo; pois assim é toda meditação”.
Charles Sanders Peirce.
Charles Sanders Peirce (1839-1914), considerado o pai da semiótica, pretendia uma teoria geral da representação. A semiótica está para a lógica, esta é uma lógica da descoberta, nela estando presentes: a Dedução referindo-se à necessidade, a Indução referindo-se à generalização e a Abdução referindo-se a hipótese.
Observamos, no livro de Peirce “Semiótica”(1), em seus textos: Divisão dos Signos e Ícone, Índice e Símbolo, que a lógica refere-se a semiótica, a uma doutrina dos signos.
Um signo é aquilo que sob determinado aspecto representa algo para alguém. Vai ao encontro de alguém, criando na mente desta pessoa um outro signo. O signo é uma representação de seu objeto.
Peirce, afirma que: “Os signos são divisíveis conforme três tricotomias; a primeira, conforme o signo em si mesmo for uma mera qualidade, um existente concreto ou uma lei geral; a segunda, conforme a relação do signo para com seu objeto consistir no fato de o signo ter algum caráter em si mesmo, ou manter alguma relação existencial com esse objeto ou em relação com um interpretante; a terceira, conforme seu interpretante representá-lo como um signo de possibilidade ou como um signo de fato ou como um signo de razão.” (1) De acordo com a primeira divisão, constatamos que um signo pode ser: Qualissigno, Sinsigno ou Legissigno. Conforme a segunda tricotomia dos signos, ele pode ser denominado: Ícone, Índice ou Símbolo. Em conformidade com a terceira tricotomia dos signos, ele pode ser denominado: Rema, Dicissigno ou Dicente ou Argumento. Constatamos que as três tricotomias dos Signos, em conjunto, propiciam uma divisão dos Signos em dez classes de Signos, sendo elas: a primeira, um Qualissigno, o qual é um Ícone, é uma possibilidade lógica, sendo interpretada como um signo de essência, ou seja um Rema. A segunda, um Sinsigno Icônico, sendo este um objeto de experiência, determinando a idéia de um objeto; é um Ícone, sendo interpretado como um signo de essência, ou Rema. A terceira, um Sinsigno Indicial Remático, sendo que este abrange todo objeto da experiência direta, bem como, envolve um Sinsigno Icônico de um tipo especial. A quarta, um Sinsígno Dicente, ou seja um objeto da experiência direta, é um Índice. A quinta, um Legissigno Icônico, refere-se à lei geral, é um Ícone, governa Réplicas singulares. A sexta, um Legis
signo Indicial Remático, é lei geral, afeta o objeto, atrai atenção para esse objeto. Sendo que suas Réplicas serão um Sinsigno Indicial Remático de um tipo especial. A sétima, Um Legissigno Indicial Dicente, é lei geral, cada um de seus casos é afetado por seu objeto, fornecendo uma informação definida sobre esse objeto. Sendo que suas Réplicas serão um Sinssigno Dicente de um tipo especial. A oitava, um Símbolo Remático ou Rema Simbólico, refere-se a um signo ligado ao seu objeto através de uma associação de idéias gerais. É um Legissigno. A nona, um Símbolo Dicente ou Proposição Ordinária, trata-se de um signo ligado a seu objeto através de idéias gerais e atua como Símbolo Remático, liga-se com o objeto indicado. A décima, um Argumento é signo, sendo que um interpretante representa seu objeto. Seu objeto deve ser geral. O Argumento deve ser um Símbolo, bem como um Legissigno. Sendo sua Réplica um Sinsigno Dicente.
Observamos também que a tricotomia do argumento dá origem a Dedução, Indução e Abdução.
Diríamos ainda que um Símbolo Dicente, ou proposição geral, se apresenta de forma Particular ou Universal. Sendo que um Símbolo Dicente Particular, apresenta seu interpretante como índice de um fato de existência. Ao passo que um Símbolo Dicente Universal, apresenta seu interpretante como índice de uma lei real. Afirmamos também que um Símbolo Dicente é Relativo ou não Relativo.
O Signo é um primeiro que está em relação de representação para um segundo, seu objeto, para fins de sua significação em um terceiro, seu interpretante. Ser o primeiro é ser original, ser o segundo é ser alteridade, ser o terceiro é ser mediação significativa. O signo é o primeiro, é livre.
Os signos dividem-se em Ícones, Índices e Símbolos. O Ícone é um signo cujas condições de significação prescinde da existência de seu objeto, isto é o Ícone pode significar quer seu objeto seja uma existência ou realidade. O Ícone prescinde do objeto para significar. Toda hipótese é Icônica. O Índice é o signo que significa tão somente através de seu vínculo existencial com o seu objeto. Desta forma é a existência do objeto que determina a possibilidade interpretante do Índice. O Índice não prescinde do objeto para significar. O símbolo representa através de uma lei geral (regras), convencional ou semiconvencional. O Símbolo refere-se ao que possa concretizar a idéia ligada à palavra. Para ilustrar o tema em questão faremos menção ao escrito de Peirce: “Uma progressão regular de um, dois, três pode ser observada nas três ordens de signos, Ícone, Índice e Símbolo. O Ícone não tem conexão dinâmica alguma com o objeto que representa; simplesmente acontece que suas qualidades se assemelham às do objeto e excitam sensações análogas na mente para a qual é uma semelhança. Mas, na verdade, não mantém conexão com elas. O Índice está fisicamente conectado com seu objeto; formam, ambos, um par orgânico, porém a mente interpretante nada tem a ver com essa conexão, exceto o fato de registrá-la, depois de ser estabelecida. O Símbolo está conectado a seu objeto por força da idéia da mente-que-usa-o-símbolo, sem a qual essa conexão não existiria.” (1)
A Matemática e a Arte são icônicas, possuem a mesma natureza, são discursos cuja significação prescinde da realidade. O artista constrói ícones; na arte o ser humano cria. A matemática, assim como a arte, constrói universos possíveis. O jogo da arte é a construção de possibilidades. O ícone é possibilidade.
A obra de arte polissêmica é aberta, faz uso da liberdade. A obra de arte possui várias possibilidades, ela sempre se renova. Os objetos do mundo se expressam de diversas maneiras. O ícone é um signo que se assemelha formalmente ao objeto. O ícone ao se constituir acaba constituindo o próprio objeto. O fundamento da arte é a liberdade; o signo da arte determina a forma do objeto.
Luís Otávio Maciel
Mestrando em Filosofia – PUC/SP
BIBLIOGRAFIA:
(1) PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo, ed. Perspectiva, 3.ed., 2000, trad. José Teixeira Coelho Neto.
(2) IBRI, Ivo Assad. Kósmos Noétós: a arquitetura metafísica de Charles S. Peirce. São Paulo, ed. Perspectiva/ed.Hólon, 1.ed.,1992.
(3) PEIRCE, Charles Sanders. The Essential Peirce: Selected Philosophical Writings – Um Argumento Negligenciado para a Realidade de Deus. Bloomington e Indianápolis: Indiana University Press, ed. Peirce Project, 1998, trad. Cassiano Terra Rodrigues.
(4) PEIRCE, Charles Sanders. Escritos coligidos. São Paulo, ed. Nova Cultural, 4.ed., 1989, trad. Armando Mora D’Oliveira e Sérgio Pomerangblum.
www.paradigmas.com.br/parad12/p12.5.htm
O SÍMBOLO LINGUÍSTICO
Nesta aula, procuramos estabelecer as diferenças existentes entre ícone, índice e símbolos. Antes de entrar diretamente no tema, é muito importante definirmos o que é semiótica, podemos defini-la como sendo a disciplina que se ocupa do estudo dos símbolos, do seu processo e sistema em geral, na semiótica todo signo que a convencionalidade predomina possui uma relação símbolo. Exemplo disso é a paz mundial e a pomba da paz, a convenção fez da imagem semelhante a uma pomba branca, um símbolo de paz.
Segundo Charles Sanders Peirce, existem três tipos de signos:
1 O ícone, que mantêm uma relação de proximidade sensorial ou emotiva entre o signo, representação do objeto, e o objeto dinâmico em si – exemplo: pintura
2 O índice, ou parte representada de um todo anteriormente adquirido pala experiência subjetiva ou pela herança cultural – exemplo: onde há fumaça, logo há fogo. Quer dizer que através de um índice (causa) tiramos conclusões.
3 O símbolo, que de forma arbitrária estabelece uma relação convencionada entre o signo e o objeto – exemplo: o termo cadeira.
Segundo Charles Sanders Peirce, existem três tipos de signos:
1 O ícone, que mantêm uma relação de proximidade sensorial ou emotiva entre o signo, representação do objeto, e o objeto dinâmico em si – exemplo: pintura
2 O índice, ou parte representada de um todo anteriormente adquirido pala experiência subjetiva ou pela herança cultural – exemplo: onde há fumaça, logo há fogo. Quer dizer que através de um índice (causa) tiramos conclusões.
3 O símbolo, que de forma arbitrária estabelece uma relação convencionada entre o signo e o objeto – exemplo: o termo cadeira.
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domingo, 3 de outubro de 2010
Os Estudos Sobre Linguagens: uma história das idéias
Os Estudos Sobre Linguagens
Uma História das Idéias
Eduardo Guimarães
Entre as hipóteses do senso comum sobre o que é a linguagem e as línguas, podemos encontrar hoje a predominância de uma que considera a linguagem como instrumento de comunicação. Hipótese muito própria do mundo contemporâneo marcado, entre outras coisas, pela mídia. Esta hipótese acompanha duas outras, pelo menos: a de que dizer é, fundamentalmente, informar; e a de que a linguagem expressa nossos pensamentos (e sentimentos). São hipóteses tomadas, enganosamente, pelo senso comum como compondo, em seu conjunto, uma concepção inquestionável do que é a linguagem.
Ao lado destas hipóteses opera ainda uma outra que incide diretamente sobre o que é uma língua, e o que é falar uma língua específica. Mais precisamente, o que é uma língua nacional e o que é falar esta língua. Neste caso entra em cena a hipótese de que uma língua é aquilo que é tomado como padrão de correção por uma elite escolarizada e culta.
1. Um Interesse Milenar
O interesse pela linguagem data da antigüidade clássica. Tal interesse se apresenta, na Grécia, no interior da filosofia, que se viu levada a estudar a estrutura do enunciado para poder tratar do juízo. Isto levou Platão[1] a estabelecer a primeira classificação das palavras de que se tem conhecimento. Para ele as palavras podem ser nomes e verbos. Depois dele Aristóteles[2] considerou uma outra classificação das palavras: nomes, verbos e partículas. Se aqui temos a primeira divisão da cadeia de sinais lingüísticos pelo reconhecimento de uma diferença de categoria entre palavras, estamos diante de uma posição que toma como interesse a relação da linguagem com o conhecimento. A divisão entre nomes e verbos procura descrever a estrutura do juízo, que deve falar de como é o mundo.
Ao lado dos estudos filosóficos, também na Grécia, desenvolveram-se os estudos retóricos e gramaticais. A Gramática pode ser considerada como elemento de uma das primeiras revoluções tecnológicas da história do Homem[3]. A gramática constitui-se na história como uma instrumentação das línguas que, enquanto arte (no sentido latino) ou técnica (no sentido grego), apresenta-se como um modo de ensinar a ler e a escrever corretamente. Ou seja, a Gramática[4] instala, como central, no domínio do estudos da linguagem, a qualidade da correção. Qualidade que toma várias feições no decorrer da história e permanece, ainda hoje, como um modo de regular as línguas como línguas dos Estados Nacionais, com todas as conseqüências que isso traz. Por outro lado, a Retórica[5] se apresenta como o estudo das técnicas de convencimento dos ouvintes por aquele que fala, o orador. Neste caso o que interessa é como dizer para levar o ouvinte à conclusão projetada. Estamos diante de duas posições distintas: de um lado um norma de correção (gramática), de outro as regras de como proceder para convencer, para alcançar o ouvinte (retórica). De um lado o "valor" da língua, de outro a adequação da relação orador/auditório.
Ainda na antiguidade, podemos retornar à Índia, onde o interesse religioso levou a estudos bastante rigorosos dos aspectos fonológicos do sânscrito. Estes estudos tinham a finalidade de estabelecer de modo perfeito que som deveria ser produzido nos cânticos sagrados, para que eles tivessem validade sagrada. Estes estudos levam a uma rigorosa descrição dos sons, que podemos encontrar na gramática de Panini[6], num certo sentido um precursor remoto de estudos estruturais do século XX. Neste caso o que está em jogo é a correção da descrição de uma qualidade fônica, está em jogo a descrição da forma da língua, nela mesma.
2. Saussure: as Idéias Lingüísticas na Entrada do Século XX
O pensamento moderno sobre a linguagem instala-se a partir do início do século XIX, com a lingüística comparativa[7] . Neste momento a lingüística se apresenta tomando como objeto a mudança lingüística, motivada por um projeto de poder reconstituir o passado lingüístico das línguas européias e asiáticas. A questão principal aqui são as relações genealógicas entre as línguas, e o objeto do lingüista são as formas no seu processo de mudança. Toma-se uma forma para saber como ela era antes, busca-se reconstruir por comparação entre as línguas aparentadas (dizia-se da mesma família), o passado da forma em questão. Este procedimento, que se dá no interior de uma posição naturalista, biológica[8], sobre a linguagem, se caracteriza fundamentalmente pela formulação das chamadas leis fonéticas. Ou seja, as mudanças seriam resultado necessário de certas características das formas das línguas. Vamos dar um exemplo, tomando a passagem do latim vulgar (popular) para o Português[9]: As palavras do Português mantêm a acentuação tônica do latim: muliére> mulher, intégru> inteiro, cathédra> cadeira, tenébras> trevas, etc.
Os estudos sobre a linguagem tomaram a forma que têm hoje a partir de mudanças no domínio da lingüística, constituídas no início do século XX, pelo abandono do naturalismo dominante no comparatismo do século XIX. É deste momento um dos três principais movimentos fundadores nos estudos lingüísticos naquele século, o curso de lingüística geral de Ferdinand Saussure, na universidade de Genebra, nos anos de 1906-1907, 1908-1909, 1910-1911. Este curso foi posteriormente transformado em livro, por dois de seus discípulos (Charles Bally e Albert Sechehaye[10]), depois da morte de Saussure, a partir das anotações de vários de seus alunos.
A posição de Saussure, vindo do comparatismo do século XIX, no qual ele se formara, procura, de algum modo, ligar duas tradições daquele momento, a alemã e a francesa. É assim que Saussure chega a sua clássica distinção entre língua e fala, como forma de definir um objeto específico para a lingüística, que, segundo ele, apresentasse uma homogeneidade interna, sem o que seria impossível pensar a linguagem cientificamente. A língua é este objeto homogêneo que ele caracteriza como uma sistema de formas que se caracterizam pelas relações que têm umas com as outras. Estamos diante de uma concepção da língua como sistema, que substitui a concepção naturalista, organicista, e atomista, própria do comparatismo. E ao lado dessa distinção Saussure coloca uma outra, a distinção entre sincronia e diacronia. Assim, embora ele reconheça o lugar dos estudos das mudanças, considera que a lingüística deveria colocar no centro de seu interesse o estudo do sistema da língua, num momento dado. Segundo ele, no funcionamento da língua, não se é levado pelo que as formas foram, mas por aquilo que elas são e pelas relações que elas têm naquele momento da história. Para quem fala não interessa se mulher veio de muliére, mas que mulher se opõe a homem, por exemplo. Está em questão aqui relações sistemáticas de simultaneidade e não relações de sucessão.
Assim temos no campo da lingüística o problema da descrição do que a lingüística chamou depois de estrutura, ao lado do estudo da mudança. E a lingüística do século XX, embora tenha sido basicamente sincrônica, manteve forte produção na linha histórica, evidentemente afetada pelo corte da distinção saussureana que, ao estabelecer a língua como objeto da lingüística, constituiu um objeto no qual não estavam incluídas as questões do sujeito, da relação com o mundo, e mesmo a questão da significação, que foi substituída por aquilo que Saussure chamou de valor das formas lingüísticas. Estamos aqui no domínio do lingüístico enquanto relação com o lingüístico. Ou seja, nada no lingüístico é externo à língua. Neste caso, por exemplo, não interessa a relação das formas da língua com os objetos do mundo ou com o pensamento. Não está em questão em Saussure nem a referência, nem a expressão do pensamento. Busca-se estar num domínio autônomo que não é o filosófico nem no sentido aberto por Platão, de um lado, nem no de Aristóteles, de outro. Nem no sentido de Descartes[11], no século XVI (que retoma Platão num certo sentido), em que a questão é cognitiva (ligada à estrutura do pensamento).
3. Caminhos do Estruturalismo
Este corte saussureano põe os estudos da linguagem num novo caminho que se desdobra por várias direções: desde estudos comparatistas que se renovaram pela concepção de sistema de Saussure, até estudos sincrônicos que, lidando com os limites do objeto saussureano, buscam incluir no lingüístico o sujeito. Este é o caso, por exemplo, de Benveniste[12] que instala um domínio específico para os estudos enunciativos, ou seja para considerar o funcionamento da língua marcada pela relação que aquele que fala (o locutor) tem com a língua e que se marca na estrutura da língua. Estes trabalhos tiveram vários desdobramentos bastante conhecidos no Brasil, como a semântica argumentativa, desenvolvida a partir da noção de escala argumentativa de Ducrot[13] e que aparece também nos trabalhos de Carlos Vogt[14] . A semântica argumentativa considera que o fundamento do sentido são estas relações "retóricas" que se marcam na língua, de tal modo que falar é ser tomado por estas relações de argumentação. O retórico é assim tomado como integrado no lingüístico. Para esta semântica o sentido não é uma relação da linguagem com o mundo, constituído a partir de um conceito de verdade, mas uma relação própria do acontecimento de enunciação que constitui os lugares do locutor e seu destinatário.
Paralelo a este tipo de trabalho podemos encontrar, também no campo do estudo da significação, aqueles que vêm pela via da filosofia analítica inglesa e que deixaram para os estudos da linguagem a concepção dos atos de fala. Ou seja, considera-se que falar é fazer algo. Por exemplo: dizer eu prometo x não é informar que se está prometendo. Dizer eu prometo x é a própria promessa de fazer x. Aqui uma das figuras fundamentais é o filósofo inglês Austin[15] e sua clássica obra How to Do things with words, publicado em 1962. Os trabalhos da filosofia analítica desenvolveram-se fortemente num campo conhecido como pragmática, que já se desenhara nas formulações de Morris na década de 30 de século XX[16], numa linha ligada ao pragmatismo de Peirce[17], americano do final do século XIX, e criador da semiótica.
Numa de suas formulações atuais, feita a partir de Grice, para a pragmática o sentido é pensado como intenção do falante, que ele comunica ao ouvinte, na medida do reconhecimento da intenção que teve. Estamos aqui diante de um certo tipo de psicologismo, em que o sujeito da linguagem é tomado como dono de suas intenções, precedendo o seu próprio dizer. Este psicologismo distingue estes trabalhos da pragmática dos estudos enunciativos constituídos no interior das posições estruturalistas, como os de Benveniste, por exemplo.
Outros caminhos que de algum modo circulam neste espaço saussureano são os que desembocaram no funcionalismo de Jakobson de um lado e Martinet de outro. A posição de Jakobson teve também larga repercussão no Brasil, notadamente por suas posições comunicacionais, ou seja, pela consideração da linguagem como instrumento de comunicação e pelo diálogo que manteve, a partir desta posição, com a antropologia e a teoria da informação. Tornou-se um clássico, entre outros, seu trabalho sobre as funções da linguagem, que está em "Linguística e Poética"[18] .
Num outro caminho do estruturalismo com filiação saussureana, podemos pensar em Hjelmslev[19], que vai desenvolver um estruturalismo não funcionalista e que afetou diretamente um tipo de estudo da significação, a semântica estrutural de Greimas, que se constituiu enquanto uma semiótica estrutural. No Brasil esta posição desenvolveu um diálogo particular com a análise do discurso, nas obras de José Luis Fiorin e Diana Pessoa de Barros, como parte do movimento de incluir no tratamento semiótico os aspectos ideológicos da significação.
O Estruturalismo que caracteriza a lingüística européia em meados do século XX, dará a esta disciplina a posição de ciência piloto das ciências humanas. Veremos então o estruturalismo avançar para os domínios da antropologia, da sociologia, da psicanálise, da Filosofia, configurando elementos fundamentais do pensamento de autores como Levi-Strauss, Lacan e Althousser, por exemplo. Esta via passa a pôr no centro da questão das ciências humanas o simbólico, ou seja, os fatos humanos significam, estão estruturados enquanto significação.
4. O Formal e uma Nova Busca da Gramática
Um segundo movimento fundamental da lingüística do século XX é marcado pelo trabalho de Chomsky, que se inscreve numa tradição americana da lingüística. Ele busca, ao mesmo tempo, para fundamentar uma nova posição biológica para a linguagem, o cognitivismo do século XVI. Aqui a Linguagem passa a estar diretamente ligada à questão do pensamento e aparece como instrumento de expressão do pensamento. Isto se constitui a partir de uma posição metodológica claramente formal e lógica. O trabalho de Chomsky e a Gramática Gerativa e Transformacional colocam como central na lingüística as relações das unidades lingüísticas entre si, ou seja, a sintaxe. Para ele as pessoas falam porque têm um órgão da linguagem. A capacidade (o que o gerativismo chama competência) para falar é inata na medida mesmo em que é biológica. Deste modo Chomsky[20] recoloca a lingüística no domínio das ciências da natureza, tal como no comparatismo do século XIX, com uma diferença fundamental: o biologismo é posto fora do historicismo. O Biológico é pensado a partir de uma concepção universal e não a partir de uma visão de uma história natural, em que o que se punha em realce eram as diferenças entre as espécies, etnias, etc. Para Chomsky a questão é que o Humano é biologicamente universal e é o mesmo para todos, e a linguagem é parte desta caracterização naturalista e universal do homem.
Na medida em que se constitui como uma gramática, a teoria chomskyana concebe o conhecimento sobre as línguas como um conjunto de regras de como formar frases. Estas regras são consideradas como constituindo a competência dos falantes, considerados idealmente, ou seja, fora de qualquer situação histórica particular.
Este movimento formal encontra também sua face semântica. Baseando-se em posições da lógica do final do século de XIX e início do século XX (como os de Frege e Russell[21]), desenvolve-se um estudo da significação que se formula como um sistema lógico e constitui a noção de sentido a partir do conceito de verdade. Ou seja, está-se aqui numa posição relacionada ou ao idealismo platônico, ou ao pensamento aristotélico. Estes estudos se dão com freqüência no interior da filosofia da linguagem, onde encontramos autores como Wittgenstein (do tratado lógico-filosófico), Grice e Davidson[22].
5. O Lingüístico e as Diferenças Culturais e Sociais
Se o que até aqui se colocou formula aspectos de concepções da unidade do lingüistico, podemos encontrar a consideração da não unidade da língua na lingüística do século XX tanto a partir de considerações ligadas à antropologia quanto à sociologia. No Caso da Antropologia, encontramos o pensamento de Sapir, lingüista americano formado a partir das posições da Antropologia de Boaz. Para ele a língua é parte da cultura de um povo e é assim marcada por esta cultura. Estamos aqui diante de uma concepção em que a linguagem é pensada a partir de elementos exteriores que a constituem. Mattoso Câmara, já no início da década de 40 do século XX, inicia, no Brasil, um trabalho ligado a estas concepções, que ele formula, também, a partir das posições vindas de Saussure, notadamente pela via de Jakobson e Martinet. Ele é, ao mesmo tempo, um lingüista de formação histórica e deixa uma obra estruturalista que vai do estudo histórico da Língua Portuguesa, à descrição sincrônica do Português dito padrão. Dedica-se, ainda, à estilística, ao lado de vasto trabalho no campo das línguas indígenas.
Um outro movimento oposto ao da universalidade e unidade do lingüistico, pensado agora enquanto competência, é o da sociolingüística quantitativa americana de Labov. Aqui a língua é pensada como tendo uma estrutura variável que se pode conhecer por um método quantitativo, através do qual é possível estabelecer relações entre um divisão estratificada da sociedade e a variabilidade estatística da língua. Neste caso o externo que determina a língua é pensado como distinto do lingüístico e a socioligüística incumbe-se de estabelecer as correlações entre uma estratificação social e a variabilidade das estruturas lingüísticas.
Estas posições antropológicas e sociolingüísticas trazem para a discussão atual questões relativas ao que se costuma chamar contato de línguas. Aspectos já postos em pauta, a partir do comparatismo, por Hugo Schuchardt[23] na passagem do século XIX para o XX.
6. Mais um Movimento do Lingüístico no Domínio das Ciências Humanas e Sociais
Um terceiro momento decisivo na história dos estudos da linguagem no século XX é marcado por uma posição teórica que busca pensar a relação entre a exterioridade e o lingüístico como uma relação histórica e constitutiva do processo lingüístico. Estamos aqui diante da posição da Análise de Discurso que se desenvolve a partir do final da década de 60 do século XX na França. De um lado podemos lembrar aqui o pensamento de Foucault, no interior de um pensamento filosófico dedicado ao estudo da história, e de outro o pensamento de Pêcheux[24], que constitui a análise do discurso como modo de se poder pensar o histórico e o político como próprios do processo de significação do dizer (no qual se constitui o sujeito). Para esta posição o objeto fundamental dos estudos é o discurso enquanto objeto integralmente lingüístico e integralmente histórico. Ou seja, a exterioridade não se apresenta como um fora a que a linguagem deve ser correlacionada, ela é parte do que é próprio da linguagem e de seu funcionamento. E. Orlandi[25] traz para este campo, entre outras, duas contribuições específicas. A primeira é a formulação de que a questão do sentido diz respeito a uma tensão entre a polissemia (os muitos e sempre outros sentidos) e a paráfrase (o dizer o mesmo). A segunda é a consideração de que o sentido não diz respeito ao segmental, mas a que o silêncio significa, e é isto que faz o sentido da linguagem.
Reencontra-se assim uma posição que coloca a questão da linguagem no centro da cena das ciências humanas. A diferença, aqui, relativamente ao estruturalismo, é que está em questão a historicidade, que não está presente nem no social saussureano, nem no funcionalismo de Jakobson, nem mesmo, num certo sentido, nas abordagens diacrônicas e magistrais de Benveniste nos seus estudos do Indo-europeu. Ou seja, a historicidade não está na análise do discurso definida pelo tempo, enquanto dimensão do mundo, mas por uma especificidade determinada pela ideologia, por uma materialidade sócio-histórica.
7. Uma Cena Contemporânea
Do ponto de vista das ciências da linguagem hoje, vivemos um embate entre a) um cognitivismo naturalista que o pensamento chomskyano reintroduziu e que localiza a lingüística no interior da biologia (enquanto ciência psicologica), ou seja, das ciências naturais; b) posições derivadas do estruturalismo, como os estudos enunciativos, para os quais o funcionamento da língua se dá porque a língua está marcada por formas próprias para seu funcionamento no acontecimento enunciativo, posições então que mantêm a questão da autonomia do lingüístico posta por Saussure; c) posições que procuram estabelecer diálogos entre as diversas disciplinas das ciências humanas que levam a pensar o lingüístico como definido por uma correlação com o que está fora do lingüístico: o antropológico, o social, o psicológico, etc. d) posições como a da análise de discurso que põem em cena a questão de que não se pode reduzir o lingüístico nem ao social (antropológico) nem ao psicológico, pois a linguagem é, ao lado de integralmente lingüística - num certo sentido saussureano - também integralmente histórica.
Eduardo Guimarães é lingüista e professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp.
Notas
[1]Filósofo grego do século IV a. C. [voltar]
[2]Filósofo grego do século IV a. C. [voltar]
[3]Esta é a posição de S. Auroux, em A Revolução Tecnológica da Gramatização, Campinas, Editora da Unicamp, 1992. [voltar]
[4]Como marco da história da Gramática na grécia pode-se considerar Dionísio da Trácia, Gramático do século II a.C., também deste século é o gramático latino Varrão. [voltar]
[5]Pode-se considerar o início da retórica no século IV a.C, com Corax e Tísias. Decisiva nesta história é a Retórica de Aristóteles. [voltar]
[6]Gramático Indu do século IV a. C. Do século II a.C é Pantañjali que, junto com Panini, constitui a tradição da gramática normativa do sânscrito. [voltar]
[7]Considera-se o trabalho de Franz Bopp, Sobre o sistema de Conjugações do Sânscrito, Grego, Latim, Persa e Línguas Germânicas, publicado em 1816, como um marco para a constituição da linguística comparativa. Outra obra fundamental é a Gramática Germânica de Grimm, de 1819. Antes deles pode-se considerar o trabalho de Rasmus Rask de 1811, publicado em 1818. [voltar]
[8]A lingüística é considerada uma disciplina da biologia. [voltar]
[9]Como se sabe, o Português é resultado de mudanças históricas específicas a partir do latim vulgar. [voltar]
[10]A primeira edição do Curso de Linguística Geral de Saussure é de 1916. Saussure nasceu em 1857 e morreu em 1913. [voltar]
[11]Filósofo Francês (1596-1650) [voltar]
[12]Lingüista Francês (1902-1976). Ver fundamentalmente seus artigos nas seções "O Homem na Língua" e "Comunicação", em Problemas de Linguística Geral I e II. Estas obras reúnem sua produção em lingüística geral desde o final da década de 30 do século XX. Publicados no Brasil por Pontes, Campinas. [voltar]
[13]Ver "As Escalas Argumentativas" de 1983, traduzido para o Português em Provar e Dizer. São Paulo. Global, 1981. Ver também "Argumentação e 'topoi' argumentativos". Publicado em História e Sentido na Linguagem, Campinas, Pontes, 1989. [voltar]
[14]Ver, por exemplo, O Intervalo Semântico, São Paulo, Ática, 1977 e Linguagem, Pragmática e Ideologia, São Paulo, Hucitec, 1980. [voltar]
[15]Filósofo inglês (1911-1960) [voltar]
[16]Ver Fundamentos da Teoria dos Signos, de 1938. Publicado no Brasil por Eldorado Tijuca/Edusp, Rio de Janeiro, 1976. [voltar]
[17]Charles Sanders Peirce (1839-1914) [voltar]
[18]Texto de 1960, publicado no Brasil em Lingüística e Comunicação, São Paulo, Cultrix, 1969. Jakobson nasceu na Rússia em 1896 e morre nos Estados Unidos em 1982. [voltar]
[19]Lingüista dinamarquês (1899-1965). [voltar]
[20]Pode-se considear como obras de fundação de seu pensamento Estruturas Sintáticas de 1957 e Aspectos da Teoria da Sintaxe de 1965. Para se observarem as mudanças de modelo da teoria, numa análise do Português, pode-se recorrer a Análise Sintática. São Paulo, Ática, 1984, de Miriam Lemle; e As Gramáticas do Português, Campinas, Editora Unicamp, 2001, de Charlotte Galves. [voltar]
[21]Podemos lembrar de Frege, "Sobre o Sentido e a Referência" de 1892, publicado no Brasil em Lógica e Filosofia da Linguagem, São Paulo, Cultrix/Edusp, 1978; e de Russell, "Da Denotação", de 1950, publicado no Brasil em Os Pensadores XLII, São Paulo, Abril, 1974. [voltar]
[22]O Tratado Lógico-Filosófico é publicado em 1921. De Grice ver, por exemplo, "Lógica da Conversação", de 1967; e de Davidson "Verdade e Sentido" de 1967, publicado no Brasil em Dascal, M Semântica, Campinas, 1982. [voltar]
[23]Lingüista alemão (1842-1927). [voltar]
[24]Ver, entre outros trabalhos seus, Análise Automática do Discurso de 1969, publicado no Brasil em Por Uma Análise Automática do Discurso, Campinas, Editora da Unicamp, 1990; Semântica e Discurso, de 1975, publicado no Brasil pela Editora da Unicamp, Campinas, 1988; e Estrutura ou Acontecimento, de 1983, publicado no Brasil por Pontes, Campinas, 1990. [voltar]
[25]A este respeito ver A Linguagem e seu Funcionamento de 1983, Campinas, Pontes, 1987; As Formas do Silêncio, Campinas, Editora da Unicamp, 1992; Interpretação, Petrópolis, Vozes, 1996. [voltar]
Atualizado em 10/08/2001
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Uma História das Idéias
Eduardo Guimarães
Entre as hipóteses do senso comum sobre o que é a linguagem e as línguas, podemos encontrar hoje a predominância de uma que considera a linguagem como instrumento de comunicação. Hipótese muito própria do mundo contemporâneo marcado, entre outras coisas, pela mídia. Esta hipótese acompanha duas outras, pelo menos: a de que dizer é, fundamentalmente, informar; e a de que a linguagem expressa nossos pensamentos (e sentimentos). São hipóteses tomadas, enganosamente, pelo senso comum como compondo, em seu conjunto, uma concepção inquestionável do que é a linguagem.
Ao lado destas hipóteses opera ainda uma outra que incide diretamente sobre o que é uma língua, e o que é falar uma língua específica. Mais precisamente, o que é uma língua nacional e o que é falar esta língua. Neste caso entra em cena a hipótese de que uma língua é aquilo que é tomado como padrão de correção por uma elite escolarizada e culta.
1. Um Interesse Milenar
O interesse pela linguagem data da antigüidade clássica. Tal interesse se apresenta, na Grécia, no interior da filosofia, que se viu levada a estudar a estrutura do enunciado para poder tratar do juízo. Isto levou Platão[1] a estabelecer a primeira classificação das palavras de que se tem conhecimento. Para ele as palavras podem ser nomes e verbos. Depois dele Aristóteles[2] considerou uma outra classificação das palavras: nomes, verbos e partículas. Se aqui temos a primeira divisão da cadeia de sinais lingüísticos pelo reconhecimento de uma diferença de categoria entre palavras, estamos diante de uma posição que toma como interesse a relação da linguagem com o conhecimento. A divisão entre nomes e verbos procura descrever a estrutura do juízo, que deve falar de como é o mundo.
Ao lado dos estudos filosóficos, também na Grécia, desenvolveram-se os estudos retóricos e gramaticais. A Gramática pode ser considerada como elemento de uma das primeiras revoluções tecnológicas da história do Homem[3]. A gramática constitui-se na história como uma instrumentação das línguas que, enquanto arte (no sentido latino) ou técnica (no sentido grego), apresenta-se como um modo de ensinar a ler e a escrever corretamente. Ou seja, a Gramática[4] instala, como central, no domínio do estudos da linguagem, a qualidade da correção. Qualidade que toma várias feições no decorrer da história e permanece, ainda hoje, como um modo de regular as línguas como línguas dos Estados Nacionais, com todas as conseqüências que isso traz. Por outro lado, a Retórica[5] se apresenta como o estudo das técnicas de convencimento dos ouvintes por aquele que fala, o orador. Neste caso o que interessa é como dizer para levar o ouvinte à conclusão projetada. Estamos diante de duas posições distintas: de um lado um norma de correção (gramática), de outro as regras de como proceder para convencer, para alcançar o ouvinte (retórica). De um lado o "valor" da língua, de outro a adequação da relação orador/auditório.
Ainda na antiguidade, podemos retornar à Índia, onde o interesse religioso levou a estudos bastante rigorosos dos aspectos fonológicos do sânscrito. Estes estudos tinham a finalidade de estabelecer de modo perfeito que som deveria ser produzido nos cânticos sagrados, para que eles tivessem validade sagrada. Estes estudos levam a uma rigorosa descrição dos sons, que podemos encontrar na gramática de Panini[6], num certo sentido um precursor remoto de estudos estruturais do século XX. Neste caso o que está em jogo é a correção da descrição de uma qualidade fônica, está em jogo a descrição da forma da língua, nela mesma.
2. Saussure: as Idéias Lingüísticas na Entrada do Século XX
O pensamento moderno sobre a linguagem instala-se a partir do início do século XIX, com a lingüística comparativa[7] . Neste momento a lingüística se apresenta tomando como objeto a mudança lingüística, motivada por um projeto de poder reconstituir o passado lingüístico das línguas européias e asiáticas. A questão principal aqui são as relações genealógicas entre as línguas, e o objeto do lingüista são as formas no seu processo de mudança. Toma-se uma forma para saber como ela era antes, busca-se reconstruir por comparação entre as línguas aparentadas (dizia-se da mesma família), o passado da forma em questão. Este procedimento, que se dá no interior de uma posição naturalista, biológica[8], sobre a linguagem, se caracteriza fundamentalmente pela formulação das chamadas leis fonéticas. Ou seja, as mudanças seriam resultado necessário de certas características das formas das línguas. Vamos dar um exemplo, tomando a passagem do latim vulgar (popular) para o Português[9]: As palavras do Português mantêm a acentuação tônica do latim: muliére> mulher, intégru> inteiro, cathédra> cadeira, tenébras> trevas, etc.
Os estudos sobre a linguagem tomaram a forma que têm hoje a partir de mudanças no domínio da lingüística, constituídas no início do século XX, pelo abandono do naturalismo dominante no comparatismo do século XIX. É deste momento um dos três principais movimentos fundadores nos estudos lingüísticos naquele século, o curso de lingüística geral de Ferdinand Saussure, na universidade de Genebra, nos anos de 1906-1907, 1908-1909, 1910-1911. Este curso foi posteriormente transformado em livro, por dois de seus discípulos (Charles Bally e Albert Sechehaye[10]), depois da morte de Saussure, a partir das anotações de vários de seus alunos.
A posição de Saussure, vindo do comparatismo do século XIX, no qual ele se formara, procura, de algum modo, ligar duas tradições daquele momento, a alemã e a francesa. É assim que Saussure chega a sua clássica distinção entre língua e fala, como forma de definir um objeto específico para a lingüística, que, segundo ele, apresentasse uma homogeneidade interna, sem o que seria impossível pensar a linguagem cientificamente. A língua é este objeto homogêneo que ele caracteriza como uma sistema de formas que se caracterizam pelas relações que têm umas com as outras. Estamos diante de uma concepção da língua como sistema, que substitui a concepção naturalista, organicista, e atomista, própria do comparatismo. E ao lado dessa distinção Saussure coloca uma outra, a distinção entre sincronia e diacronia. Assim, embora ele reconheça o lugar dos estudos das mudanças, considera que a lingüística deveria colocar no centro de seu interesse o estudo do sistema da língua, num momento dado. Segundo ele, no funcionamento da língua, não se é levado pelo que as formas foram, mas por aquilo que elas são e pelas relações que elas têm naquele momento da história. Para quem fala não interessa se mulher veio de muliére, mas que mulher se opõe a homem, por exemplo. Está em questão aqui relações sistemáticas de simultaneidade e não relações de sucessão.
Assim temos no campo da lingüística o problema da descrição do que a lingüística chamou depois de estrutura, ao lado do estudo da mudança. E a lingüística do século XX, embora tenha sido basicamente sincrônica, manteve forte produção na linha histórica, evidentemente afetada pelo corte da distinção saussureana que, ao estabelecer a língua como objeto da lingüística, constituiu um objeto no qual não estavam incluídas as questões do sujeito, da relação com o mundo, e mesmo a questão da significação, que foi substituída por aquilo que Saussure chamou de valor das formas lingüísticas. Estamos aqui no domínio do lingüístico enquanto relação com o lingüístico. Ou seja, nada no lingüístico é externo à língua. Neste caso, por exemplo, não interessa a relação das formas da língua com os objetos do mundo ou com o pensamento. Não está em questão em Saussure nem a referência, nem a expressão do pensamento. Busca-se estar num domínio autônomo que não é o filosófico nem no sentido aberto por Platão, de um lado, nem no de Aristóteles, de outro. Nem no sentido de Descartes[11], no século XVI (que retoma Platão num certo sentido), em que a questão é cognitiva (ligada à estrutura do pensamento).
3. Caminhos do Estruturalismo
Este corte saussureano põe os estudos da linguagem num novo caminho que se desdobra por várias direções: desde estudos comparatistas que se renovaram pela concepção de sistema de Saussure, até estudos sincrônicos que, lidando com os limites do objeto saussureano, buscam incluir no lingüístico o sujeito. Este é o caso, por exemplo, de Benveniste[12] que instala um domínio específico para os estudos enunciativos, ou seja para considerar o funcionamento da língua marcada pela relação que aquele que fala (o locutor) tem com a língua e que se marca na estrutura da língua. Estes trabalhos tiveram vários desdobramentos bastante conhecidos no Brasil, como a semântica argumentativa, desenvolvida a partir da noção de escala argumentativa de Ducrot[13] e que aparece também nos trabalhos de Carlos Vogt[14] . A semântica argumentativa considera que o fundamento do sentido são estas relações "retóricas" que se marcam na língua, de tal modo que falar é ser tomado por estas relações de argumentação. O retórico é assim tomado como integrado no lingüístico. Para esta semântica o sentido não é uma relação da linguagem com o mundo, constituído a partir de um conceito de verdade, mas uma relação própria do acontecimento de enunciação que constitui os lugares do locutor e seu destinatário.
Paralelo a este tipo de trabalho podemos encontrar, também no campo do estudo da significação, aqueles que vêm pela via da filosofia analítica inglesa e que deixaram para os estudos da linguagem a concepção dos atos de fala. Ou seja, considera-se que falar é fazer algo. Por exemplo: dizer eu prometo x não é informar que se está prometendo. Dizer eu prometo x é a própria promessa de fazer x. Aqui uma das figuras fundamentais é o filósofo inglês Austin[15] e sua clássica obra How to Do things with words, publicado em 1962. Os trabalhos da filosofia analítica desenvolveram-se fortemente num campo conhecido como pragmática, que já se desenhara nas formulações de Morris na década de 30 de século XX[16], numa linha ligada ao pragmatismo de Peirce[17], americano do final do século XIX, e criador da semiótica.
Numa de suas formulações atuais, feita a partir de Grice, para a pragmática o sentido é pensado como intenção do falante, que ele comunica ao ouvinte, na medida do reconhecimento da intenção que teve. Estamos aqui diante de um certo tipo de psicologismo, em que o sujeito da linguagem é tomado como dono de suas intenções, precedendo o seu próprio dizer. Este psicologismo distingue estes trabalhos da pragmática dos estudos enunciativos constituídos no interior das posições estruturalistas, como os de Benveniste, por exemplo.
Outros caminhos que de algum modo circulam neste espaço saussureano são os que desembocaram no funcionalismo de Jakobson de um lado e Martinet de outro. A posição de Jakobson teve também larga repercussão no Brasil, notadamente por suas posições comunicacionais, ou seja, pela consideração da linguagem como instrumento de comunicação e pelo diálogo que manteve, a partir desta posição, com a antropologia e a teoria da informação. Tornou-se um clássico, entre outros, seu trabalho sobre as funções da linguagem, que está em "Linguística e Poética"[18] .
Num outro caminho do estruturalismo com filiação saussureana, podemos pensar em Hjelmslev[19], que vai desenvolver um estruturalismo não funcionalista e que afetou diretamente um tipo de estudo da significação, a semântica estrutural de Greimas, que se constituiu enquanto uma semiótica estrutural. No Brasil esta posição desenvolveu um diálogo particular com a análise do discurso, nas obras de José Luis Fiorin e Diana Pessoa de Barros, como parte do movimento de incluir no tratamento semiótico os aspectos ideológicos da significação.
O Estruturalismo que caracteriza a lingüística européia em meados do século XX, dará a esta disciplina a posição de ciência piloto das ciências humanas. Veremos então o estruturalismo avançar para os domínios da antropologia, da sociologia, da psicanálise, da Filosofia, configurando elementos fundamentais do pensamento de autores como Levi-Strauss, Lacan e Althousser, por exemplo. Esta via passa a pôr no centro da questão das ciências humanas o simbólico, ou seja, os fatos humanos significam, estão estruturados enquanto significação.
4. O Formal e uma Nova Busca da Gramática
Um segundo movimento fundamental da lingüística do século XX é marcado pelo trabalho de Chomsky, que se inscreve numa tradição americana da lingüística. Ele busca, ao mesmo tempo, para fundamentar uma nova posição biológica para a linguagem, o cognitivismo do século XVI. Aqui a Linguagem passa a estar diretamente ligada à questão do pensamento e aparece como instrumento de expressão do pensamento. Isto se constitui a partir de uma posição metodológica claramente formal e lógica. O trabalho de Chomsky e a Gramática Gerativa e Transformacional colocam como central na lingüística as relações das unidades lingüísticas entre si, ou seja, a sintaxe. Para ele as pessoas falam porque têm um órgão da linguagem. A capacidade (o que o gerativismo chama competência) para falar é inata na medida mesmo em que é biológica. Deste modo Chomsky[20] recoloca a lingüística no domínio das ciências da natureza, tal como no comparatismo do século XIX, com uma diferença fundamental: o biologismo é posto fora do historicismo. O Biológico é pensado a partir de uma concepção universal e não a partir de uma visão de uma história natural, em que o que se punha em realce eram as diferenças entre as espécies, etnias, etc. Para Chomsky a questão é que o Humano é biologicamente universal e é o mesmo para todos, e a linguagem é parte desta caracterização naturalista e universal do homem.
Na medida em que se constitui como uma gramática, a teoria chomskyana concebe o conhecimento sobre as línguas como um conjunto de regras de como formar frases. Estas regras são consideradas como constituindo a competência dos falantes, considerados idealmente, ou seja, fora de qualquer situação histórica particular.
Este movimento formal encontra também sua face semântica. Baseando-se em posições da lógica do final do século de XIX e início do século XX (como os de Frege e Russell[21]), desenvolve-se um estudo da significação que se formula como um sistema lógico e constitui a noção de sentido a partir do conceito de verdade. Ou seja, está-se aqui numa posição relacionada ou ao idealismo platônico, ou ao pensamento aristotélico. Estes estudos se dão com freqüência no interior da filosofia da linguagem, onde encontramos autores como Wittgenstein (do tratado lógico-filosófico), Grice e Davidson[22].
5. O Lingüístico e as Diferenças Culturais e Sociais
Se o que até aqui se colocou formula aspectos de concepções da unidade do lingüistico, podemos encontrar a consideração da não unidade da língua na lingüística do século XX tanto a partir de considerações ligadas à antropologia quanto à sociologia. No Caso da Antropologia, encontramos o pensamento de Sapir, lingüista americano formado a partir das posições da Antropologia de Boaz. Para ele a língua é parte da cultura de um povo e é assim marcada por esta cultura. Estamos aqui diante de uma concepção em que a linguagem é pensada a partir de elementos exteriores que a constituem. Mattoso Câmara, já no início da década de 40 do século XX, inicia, no Brasil, um trabalho ligado a estas concepções, que ele formula, também, a partir das posições vindas de Saussure, notadamente pela via de Jakobson e Martinet. Ele é, ao mesmo tempo, um lingüista de formação histórica e deixa uma obra estruturalista que vai do estudo histórico da Língua Portuguesa, à descrição sincrônica do Português dito padrão. Dedica-se, ainda, à estilística, ao lado de vasto trabalho no campo das línguas indígenas.
Um outro movimento oposto ao da universalidade e unidade do lingüistico, pensado agora enquanto competência, é o da sociolingüística quantitativa americana de Labov. Aqui a língua é pensada como tendo uma estrutura variável que se pode conhecer por um método quantitativo, através do qual é possível estabelecer relações entre um divisão estratificada da sociedade e a variabilidade estatística da língua. Neste caso o externo que determina a língua é pensado como distinto do lingüístico e a socioligüística incumbe-se de estabelecer as correlações entre uma estratificação social e a variabilidade das estruturas lingüísticas.
Estas posições antropológicas e sociolingüísticas trazem para a discussão atual questões relativas ao que se costuma chamar contato de línguas. Aspectos já postos em pauta, a partir do comparatismo, por Hugo Schuchardt[23] na passagem do século XIX para o XX.
6. Mais um Movimento do Lingüístico no Domínio das Ciências Humanas e Sociais
Um terceiro momento decisivo na história dos estudos da linguagem no século XX é marcado por uma posição teórica que busca pensar a relação entre a exterioridade e o lingüístico como uma relação histórica e constitutiva do processo lingüístico. Estamos aqui diante da posição da Análise de Discurso que se desenvolve a partir do final da década de 60 do século XX na França. De um lado podemos lembrar aqui o pensamento de Foucault, no interior de um pensamento filosófico dedicado ao estudo da história, e de outro o pensamento de Pêcheux[24], que constitui a análise do discurso como modo de se poder pensar o histórico e o político como próprios do processo de significação do dizer (no qual se constitui o sujeito). Para esta posição o objeto fundamental dos estudos é o discurso enquanto objeto integralmente lingüístico e integralmente histórico. Ou seja, a exterioridade não se apresenta como um fora a que a linguagem deve ser correlacionada, ela é parte do que é próprio da linguagem e de seu funcionamento. E. Orlandi[25] traz para este campo, entre outras, duas contribuições específicas. A primeira é a formulação de que a questão do sentido diz respeito a uma tensão entre a polissemia (os muitos e sempre outros sentidos) e a paráfrase (o dizer o mesmo). A segunda é a consideração de que o sentido não diz respeito ao segmental, mas a que o silêncio significa, e é isto que faz o sentido da linguagem.
Reencontra-se assim uma posição que coloca a questão da linguagem no centro da cena das ciências humanas. A diferença, aqui, relativamente ao estruturalismo, é que está em questão a historicidade, que não está presente nem no social saussureano, nem no funcionalismo de Jakobson, nem mesmo, num certo sentido, nas abordagens diacrônicas e magistrais de Benveniste nos seus estudos do Indo-europeu. Ou seja, a historicidade não está na análise do discurso definida pelo tempo, enquanto dimensão do mundo, mas por uma especificidade determinada pela ideologia, por uma materialidade sócio-histórica.
7. Uma Cena Contemporânea
Do ponto de vista das ciências da linguagem hoje, vivemos um embate entre a) um cognitivismo naturalista que o pensamento chomskyano reintroduziu e que localiza a lingüística no interior da biologia (enquanto ciência psicologica), ou seja, das ciências naturais; b) posições derivadas do estruturalismo, como os estudos enunciativos, para os quais o funcionamento da língua se dá porque a língua está marcada por formas próprias para seu funcionamento no acontecimento enunciativo, posições então que mantêm a questão da autonomia do lingüístico posta por Saussure; c) posições que procuram estabelecer diálogos entre as diversas disciplinas das ciências humanas que levam a pensar o lingüístico como definido por uma correlação com o que está fora do lingüístico: o antropológico, o social, o psicológico, etc. d) posições como a da análise de discurso que põem em cena a questão de que não se pode reduzir o lingüístico nem ao social (antropológico) nem ao psicológico, pois a linguagem é, ao lado de integralmente lingüística - num certo sentido saussureano - também integralmente histórica.
Eduardo Guimarães é lingüista e professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Unicamp.
Notas
[1]Filósofo grego do século IV a. C. [voltar]
[2]Filósofo grego do século IV a. C. [voltar]
[3]Esta é a posição de S. Auroux, em A Revolução Tecnológica da Gramatização, Campinas, Editora da Unicamp, 1992. [voltar]
[4]Como marco da história da Gramática na grécia pode-se considerar Dionísio da Trácia, Gramático do século II a.C., também deste século é o gramático latino Varrão. [voltar]
[5]Pode-se considerar o início da retórica no século IV a.C, com Corax e Tísias. Decisiva nesta história é a Retórica de Aristóteles. [voltar]
[6]Gramático Indu do século IV a. C. Do século II a.C é Pantañjali que, junto com Panini, constitui a tradição da gramática normativa do sânscrito. [voltar]
[7]Considera-se o trabalho de Franz Bopp, Sobre o sistema de Conjugações do Sânscrito, Grego, Latim, Persa e Línguas Germânicas, publicado em 1816, como um marco para a constituição da linguística comparativa. Outra obra fundamental é a Gramática Germânica de Grimm, de 1819. Antes deles pode-se considerar o trabalho de Rasmus Rask de 1811, publicado em 1818. [voltar]
[8]A lingüística é considerada uma disciplina da biologia. [voltar]
[9]Como se sabe, o Português é resultado de mudanças históricas específicas a partir do latim vulgar. [voltar]
[10]A primeira edição do Curso de Linguística Geral de Saussure é de 1916. Saussure nasceu em 1857 e morreu em 1913. [voltar]
[11]Filósofo Francês (1596-1650) [voltar]
[12]Lingüista Francês (1902-1976). Ver fundamentalmente seus artigos nas seções "O Homem na Língua" e "Comunicação", em Problemas de Linguística Geral I e II. Estas obras reúnem sua produção em lingüística geral desde o final da década de 30 do século XX. Publicados no Brasil por Pontes, Campinas. [voltar]
[13]Ver "As Escalas Argumentativas" de 1983, traduzido para o Português em Provar e Dizer. São Paulo. Global, 1981. Ver também "Argumentação e 'topoi' argumentativos". Publicado em História e Sentido na Linguagem, Campinas, Pontes, 1989. [voltar]
[14]Ver, por exemplo, O Intervalo Semântico, São Paulo, Ática, 1977 e Linguagem, Pragmática e Ideologia, São Paulo, Hucitec, 1980. [voltar]
[15]Filósofo inglês (1911-1960) [voltar]
[16]Ver Fundamentos da Teoria dos Signos, de 1938. Publicado no Brasil por Eldorado Tijuca/Edusp, Rio de Janeiro, 1976. [voltar]
[17]Charles Sanders Peirce (1839-1914) [voltar]
[18]Texto de 1960, publicado no Brasil em Lingüística e Comunicação, São Paulo, Cultrix, 1969. Jakobson nasceu na Rússia em 1896 e morre nos Estados Unidos em 1982. [voltar]
[19]Lingüista dinamarquês (1899-1965). [voltar]
[20]Pode-se considear como obras de fundação de seu pensamento Estruturas Sintáticas de 1957 e Aspectos da Teoria da Sintaxe de 1965. Para se observarem as mudanças de modelo da teoria, numa análise do Português, pode-se recorrer a Análise Sintática. São Paulo, Ática, 1984, de Miriam Lemle; e As Gramáticas do Português, Campinas, Editora Unicamp, 2001, de Charlotte Galves. [voltar]
[21]Podemos lembrar de Frege, "Sobre o Sentido e a Referência" de 1892, publicado no Brasil em Lógica e Filosofia da Linguagem, São Paulo, Cultrix/Edusp, 1978; e de Russell, "Da Denotação", de 1950, publicado no Brasil em Os Pensadores XLII, São Paulo, Abril, 1974. [voltar]
[22]O Tratado Lógico-Filosófico é publicado em 1921. De Grice ver, por exemplo, "Lógica da Conversação", de 1967; e de Davidson "Verdade e Sentido" de 1967, publicado no Brasil em Dascal, M Semântica, Campinas, 1982. [voltar]
[23]Lingüista alemão (1842-1927). [voltar]
[24]Ver, entre outros trabalhos seus, Análise Automática do Discurso de 1969, publicado no Brasil em Por Uma Análise Automática do Discurso, Campinas, Editora da Unicamp, 1990; Semântica e Discurso, de 1975, publicado no Brasil pela Editora da Unicamp, Campinas, 1988; e Estrutura ou Acontecimento, de 1983, publicado no Brasil por Pontes, Campinas, 1990. [voltar]
[25]A este respeito ver A Linguagem e seu Funcionamento de 1983, Campinas, Pontes, 1987; As Formas do Silêncio, Campinas, Editora da Unicamp, 1992; Interpretação, Petrópolis, Vozes, 1996. [voltar]
Atualizado em 10/08/2001
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Brasil
O estruturalismo
O estruturalismo - a semiologia e a semiótica
Tentando responder “o que é a palavra?”, que ele entendeu como um signo, formado por conceito e som (o significado e o significante), Saussure deu os primeiros passos para a emergência de uma disciplina nova, uma ciência dos sinais e dos sistemas dos sinais que ele nomeou como semiologia, para qual acreditou a lingüistica estrutural poderia fornecer a principal metodologia. Mais tarde, nos Estados Unidos, batizaram-na de semiótica. Em 1961, Lévi-Strauss situou a antropologia estrutural dentro do domínio do "semiologia". Cada vez mais os termos de semiologia e da semiótica, ciência decorrente da semiologia, vieram a designar um campo do estudo que analisa sistemas, códigos, e convenções de sinal de todos os tipos: do ser humano às línguas do animal, do jargão das formas ao léxico do alimento, das regras da narrativa popular às que compõe os sistemas fonológicos, dos códigos da arquitetura e da medicina às convenções do mito e da literatura.
O termo semiótica substituiu gradualmente o de estruturalismo, e o surgimento da Associação Internacional para Estudos Semióticos, nos 1960s, solidificou ainda mais esta tendência. No momento em que a metodologia do estruturalismo estava se dissolvendo na disciplina da semiótica, uma reação crítica ocorreu, particularmente na França. Surgiram projetos de antítese da parte de cismáticos, tais como Gilles Deleuze' com sua “esquisoanálise”, o “desconstrucionismo” de Jacques Derrida' e a “genealogia” de Michel Foucault, Estas escolas críticas foram, porém, consideradas como marginais e, depois, etiquetadas dentro do conceito muito amplo do pós-estruturalismo.
A inutilidade do pensamento científico
"De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto.
O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.
(LÉVI–STRAUSS, C. Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).
O estruturalismo - em favor da diversidade cultural
"A verdadeira contribuição das culturas não consiste numa lista das suas invenções particulares mas na maneira diferenciada com que elas se apresentam. O sentimento de gratidão e de humildade de cada membro de uma cultura dada deve ter em relação a todas as demais não deve basear-se senão numa só convicção: a de que as outras culturas são diferentes, de uma maneira a mais variada e se a natureza última das suas diferenças nos escapa...deve-se a que foram imperfeitamente penetradas.
Se a nossa demonstração é válida não há nem pode haver uma civilização mundial no seu sentido absoluto, porque civilização implica na coexistência de culturas que oferecem o máximo de diversidade entre elas, consistindo mesmo nesta coexistência. A civilização mundial não será outra coisa que a coalizão de culturas em escala mundial, preservando cada uma delas a sua originalidade".
Lévi-Strauss - Antropologia estrutural
Enciclopédia de Grolier. (de onde foi tirado o arcabouço deste texto)
Groethuysen, Bernard – "Antropologia Filosófica" (Lisboa, Presença, 1982
Lévi-Strauss, Claude - "Antropologia Estrutural" (RJ, Tempo Brasileiro, 1970)
____. "O Pensamento Selvagem" (SP, Nacional, 1976)
____. "As estruturas elementares do parentesco" (Petrópolis, RJ, Vozes, 1982)
____. "Tristes Trópicos" (Lisboa, Edições 70, 1979)
Malinowski, R. – "Uma teoria científica da cultura" (RJ, Zahar, 1962
| Michel Foucault, o mais expressivo pós-estruturalista |
"De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto.
O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.
(LÉVI–STRAUSS, C. Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).
O estruturalismo - em favor da diversidade cultural
Se a nossa demonstração é válida não há nem pode haver uma civilização mundial no seu sentido absoluto, porque civilização implica na coexistência de culturas que oferecem o máximo de diversidade entre elas, consistindo mesmo nesta coexistência. A civilização mundial não será outra coisa que a coalizão de culturas em escala mundial, preservando cada uma delas a sua originalidade".
Lévi-Strauss - Antropologia estrutural
Groethuysen, Bernard – "Antropologia Filosófica" (Lisboa, Presença, 1982
Lévi-Strauss, Claude - "Antropologia Estrutural" (RJ, Tempo Brasileiro, 1970)
____. "O Pensamento Selvagem" (SP, Nacional, 1976)
____. "As estruturas elementares do parentesco" (Petrópolis, RJ, Vozes, 1982)
____. "Tristes Trópicos" (Lisboa, Edições 70, 1979)
Malinowski, R. – "Uma teoria científica da cultura" (RJ, Zahar, 1962
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